quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Fado de um Homem Solitario



Aquele banco ali onde ele se sentava no final de tarde no jardim onde dava o resto do pao do dia anterior aos pombos podia ser o banco ou o jardim onde ele na sua infancia se sentava em outro banco e outro jardim. Tudo era diferente ate porque o banco e o jardim da sua infancia estavam longe, muito longe e somente o sentimento de tristeza e solidao permaneciam entre a infancia e os tempos do presente.

Tudo parecia um Fado, um Fado daqueles bem tristes ainda para mais agora que ela mais uma vez o desiludira e ele estava cansado tinha decidido nunca mais querer fosse o que fosse com ela. A paciencia e persistencia dele em lutar por ela e em nunca desistir dela parecia que tinha chegado ao fim. Era lamentavel mas as desilusoes que ela que lhe causara ao longo dos anos nao eram de forma alguma compensadas nem um decimo nas desilusoes e tristezas que ela lhe causara.

Tinha sido dificil claro decidir afastar-se para sempre e por completo daquela mulher que fora a unica que ele amara mas ele pensava que embora mais dolorosa era a melhor solucao e ia tentando refazer a vida, levantar a cabeca sempre com um desejo de um dia conseguir fazer com que ela se sentisse arrependida do mal que lhe fizera, tristeza que lhe causara e para isso ele tinha que lutar para dar a volta por cima.

Abandonara-o mais uma vez alegando que nao dava para continuar aquela relacao e para o seu bem-estar do dia-a-dia, sossego e tudo mais a relacao amorosa entre ambos estava terminada. Ela dissera-lhe isso praticamente assim friamente sem se preocupar com o que fazia, se o magoava ou nao. Ele aceitou a decisao dela respeitando a mesma sem reclamar que mais uma vez tinha sido ela a querer reatar tudo aquilo que agora terminava.

Ele pensara. Quem era ele afinal? Um palhaco, um animal que se deitava fora para se poder ir de ferias, um pano de loica velho que se deitava fora quando ja nao tinha utilidade para servir? Quem era ele Afinal? Ele que lhe fizera todas as vontades que podia ter feito e estavam ao seu alcance a ultima era ter estado ali perto dela durante algumas semanas e nem a isso ela soubera dar valor.

Passara mais de um mes praticamente sozinho com as visitas dela no maximo de duas vezes por semana como se ele fosse um preso que ela ia ver a cadeia. Ela nao se esforcara para estar com ele mais tempo e no fim de todas aquelas semanas talvez com o tempo todo somado nao fizesse o total de dois dias e no entanto ele foi calando, foi-se esforcando por entender, compreender os motivos dela e agora era aquela a recompensa que ela lhe dava no momento da partida.

Nao queria mais nada parecido com aquilo que tinha acontecido e para o bem dele nem a amizade iria sobreviver, nao lhe desejava mal nenhum e muito menos lhe queria fazer algum mal como forma de se vingar, esperava apenas por uma coisa. Esperava pela justica que Deus haveria de fazer um dia.

Ele sabia que tambem errara, tambem cometera pecados que nao eram bem vistos aos olhos de Deus mas fizera-o sobretudo porque mais uma vez tinha ido na conversa daquela mulher. Um dia em desabafo com um amigo que tinha conhecimento daquela historia de amor proibido com as lagrimas nos olhos ironicamente considerara que aquela mulher lhe tinha tirado anos de vida com as suas atitudes, com as suas decisoes onde ela lhe causava sempre mais uma desilusao, mais uma tristeza. O caso era mesmo para ele pensar assim mas se ele estava para ter oitenta anos de vida ia so viver ai uns sessenta os outros vinte tinham sido levados por todas as tristezas e desilusoes que ela lhe causara.

Estava novamente so, e agora como iria ser? Iria ser como sempre fora. Ele iria continuar a viver a sua vida, iria continuar a ir ao cafe diariamente antes de ir trabalhar, a ir comer o Cozido a Portuguesa ao Domingo quando estivesse em casa. Iria continuar a viver como sempre vivera e a lutar sozinho e a ter e sentir o sabor das vitorias ou a amargura das derrotas novamente, sozinho.

Custara a acreditar mas era isso que sentia ela nao estava a altura dele e jamais o estivera. Deixara-o, abandonara-o mais uma vez depois de ele ter feito tudo por ela e tudo o que ela lhe tinha pedido. Ele estivera doente, muito doente e em grave risco de morte, fora operado, sobrevivera, conseguira dar a volta por cima e mesmo a distancia ela se mostrara preocupada com ele e talvez estivesse agora nao tanto quanto mostrara na altura. Prometera-lhe que so se iria afastar dele se a obrigassem a isso e agora ali estava ela a faze-lo por sua livre iniciativa propria. Como era cinica em ter tal atitude e como era egoista em faze-lo depois de tudo o que ele fizera nas ultimas semanas por ela.

Ali o deixara sozinho sem mais conversa e ele comecara a decidir a sua vida. Ia afastar-se daquela mulher para sempre, ia recusar qualquer que fosse o contacto entre ambos porque estava certo que fosse qual fosse o relacionamento com aquela mulher era o mesmo que estar a cavar a sua propria sepultura, ela tinha-lhe tirado anos de vida com tantas desilusoes que lhe dera umas atras de outras e ele sempre ali compreensivo e persistente a lutar por ela e agora era aquilo.

Nao se achara obrigado a comunicar-lhe a decisao que tomara mas ja estava tomada. Os caminhos de ambos nao se iriam, nao se voltariam a cruzar jamais. Ele nada iria fazer para voltar a estar com ela e nem queria que tal acontecesse. Tinha recusado ate mesmo continuar uma relacao de amizade com ela e era um direito dele que ela teria, seria obrigada a respeitar tal como ele respeitara todas as decisoes dela.

Sentia alguma alegria e nem tudo eram tristezas. Gostava de escrever e tinha o sonho de anos e anos de publicar um livro. Era algo que estava agora prestes a conseguir faze-lo estava em contacto e negociacoes com uma editora que depois de ele se apresentar e trocarem as primeiras ideias terem as primeiras conversacoes dias depois a editora enviara-lhe ja dois E-mails era sinal que estavam tao interessados quanto ele em avancarem naquele projecto seu. Seria talvez o seu primeiro livro em que muitos mais se poderiam seguir mas onde ele sabia igualmente que ela apesar de tudo fora sua fonte de inspiracao na escrita em muitos momentos. Nao queria voltar a encontra-la, voltar a estar com ela mas nao a deixara de amar ele proprio reconhecia isso e era grato a ela. Uma coisa era certa nao iriam estar sempre ligados como ela o afirmara algumas vezes mas nao queria e nem conseguia odia-la. O resto, o resto era para esquecer.

                                                                                                        Manuel Goncalves

Sem comentários:

Enviar um comentário