terça-feira, 29 de novembro de 2016

O Amor Existe?



Ele era um Jornalista e ia agora estrear-se como Escritor estava prestes a publicar o seu primeiro livro ao qual tanta publicidade havia sido feita em jornais, revistas e canais de televisao que o seu primeiro livro era ja visto como um fenomeno de vendas e todos acreditavam que o mesmo viria a ser um Best-Seller.

Henrique Caetano sentia que a responsabilidade era enorme mas a estava calmo afinal a sua vida fora feita de desafios e vencera quase todos e teoricamente era o que se poderia ate chamar de um homem de sucesso e realizado. Henrique as vezes no intimo do seu ego pensava que a verdade era bem diferente, um homem realizado e de sucesso nao era um homem so, solitario, um homem que se sentia triste e que nao sabia o que era o amor, nao sabia o que era amar e nem o que era ser amado. Em quase quarenta anos de vida nao sabia o que era isso e nunca ninguem o vira com uma companhia feminina ao seu lado se bem que ele era muito reservado e a escondia um pouco do publico a sua vida pessoal mas havia sempre as galas, as festas em que ganhava ou era nomeado para receber um premio e ai aparecia sempre sozinho.

Aquele Jornalista era viciado no trabalho e tanto fazia o trabalho de Jornalista ao apresentar um Telejornal como estava habituado a fazer ao fim-de-semana como era capaz de fazer o trabalho de Reporter na rua ou num Campo de Guerra como tambem ja acontecera anteriormente e todos o viam como o espelho do bom Jornalismo em Portugal. Se era por vezes directo e agressivo nas entrevistas que fazia era porque queria levar tudo ate as ultimas consequencias para apresentar uma boa entrevista, uma boa reportagem. Era o unico caminho igualmente as vezes para manter o publico bem informado.

Quando estava em Portugal e em casa pouco era visto em publico mas aparecia aparentemente numa posse descontraida e sorridente nos centros comerciais mais conhecidos e frequentados de Lisboa, almocava por ali quando estava num passeio ou trabalho e entrava num restaurante como se um cidadao anonimo fosse mas a realidade era bem diferente. As pessoas olhavam-no, sorriam, cumprimentavam-lhe e davam-lhe os parabens pela sua coragem de trazer sempre a verdade a publico e nao temer escrever e falar de temas polemicos que outros queriam silenciar. Henrique falava com as pessoas sempre com visivel simpatia e boa disposicao, ele considerava que a simpatia do publico era o segredo do sucesso na sua carreira. Quando o publico estava satisfeito com o seu trabalho, quando o elogiavam e lhe davam os parabens faziam que o mesmo tivesse valor e por isso fosse tao bem visto e pago para estar ali a fazer aquilo que gostava de fazer.

O que se podia esperar de um Romance escrito por um Jornalista que agora se tornaria um Escritor que jamais fora visto publicamente na companhia de uma mulher, igualmente o que se poderia esperar do Romance de um Escritor de quem nada se sabia da sua vida amorosa e sentimental? Era tudo um misterio envolvido por uma enorme incognita e era sobretudo pelos criticos colocarem essas questoes que o livro era tao esperado.

Henrique Caetano estava em casa onde tinha acabado de chegar e fumava uma cigarrilha enquanto se servia igualmente de um Moscatel, Moscatel de Setubal claro. Era incapaz de virar as costas as suas raizes e origens e embora fosse ribatejano tinha sido na Zona da Costa Azul que fora criado e crescera dai a nunca negar um Moscatel, uma Caldeirada de Peixe ou o Choco Frito ali do Rei do Choco. Era um homem de requinte e bom gosto isso era notavel assim que o olhavam mas igualmente tambem facilmente se via a sua simplicidade.

Do romance em si que para breve seria publicado pouco se sabia, praticamente apenas o titulo: O amor existe? Aquele ponto de exclamacao no titulo dava igualmente a entender que a razao do titulo era mais uma pergunta do que uma afirmacao e apesar de nao se saber muito de si, apesar de ele nao se expor muito bastava olhar os olhos de Henrique para se ver que ele sofria de um mal de amor. Uma traicao, um amor nao correspondido ou um amor impossivel? Sabia-se la o verdadeiro motivo mas o que era certo e que havia realmente algo que o passado do Jornalista tinha e que estava relacionado com amores e que segundo os boatos ele trazia agora um pouco para o seu livro de estreia como Escritor.

Sentado a mesa depois de aquecer no Micro-ondas o Jantar que ele comprara no Hipermercado ali mesmo ao pe de casa. Era assim quase todas as noites gostava de cozinhar mas nao tinha tempo para isso e nem sempre tinha vontade de ir Jantar a um restaurante qualquer pelo que o ideal era comer qualquer coisa rapida em casa. Fez um cafe, sentiu que nao era nada comparado com aquele cafe que estava habituado a beber no cafezinho que frequentava ali ao pe dos estudios da RTP onde trabalhava mas era um cafe aceitavel, apesar de tudo, acompanhado de mais um Moscatel ia-lhe saber a gingas.

A noite era o seu melhor momento de inspiracao e como sofria de insonias isso nao era de todo algo incomodativo. Olhava a moldura que tinha no cimo da secretaria com uma foto de uma mulher e ia escrevendo o que vinha a ideia, nao restavam duvidas aquela era a sua musa inspiradora e a unica mulher por quem sentira algo diferente, algo forte, algo que pensava ser amor.

Nunca ninguem vira aquela foto somente ele isto se a Empregada nunca abrira a gaveta anteriormente onde ele guardava a moldura antes de comecar a escrever e ela tinha um nome, fazia parte do seu passado mas que so ele conhecia.

Nem sempre fora o homem bem sucedido profissionalmente que era nos dias de hoje e vinha de uma familia pobre e humilde com as dificuldades de tantas outras familias na mesma condicao. O pai morrera quando ele era bebe e nunca o conhecera entretanto a relacao com a mae nao era a melhor e foi piorando quando ele foi crescendo e percebendo, entendendo o que era a vida. Aos quinze anos de idade a mae simplesmente exigira que ele deixasse de estudar e fosse trabalhar.

Trabalhar no que? Ele nao sabia fazer nada e alem do mais era ilegal comecar-se a trabalhar antes dos dezasseis anos. Queria estudar, queria ser Jornalista e nunca tivera desejo de ser outra coisa fosse la o que fosse. Apos procurar-se varias saidas encontraram a mais facil e que agradava a ambas as partes. Ele ia comecar a trabalhar ou seja a fazer um Curso de Formacao Profissional de dia e iria estudar de noite. O salario ou melhor a bolsa do curso nao era grande coisa mas ja servia para a mae nao reclamar.

A vida naquele Centro de Formacao Profissional nao lhe agradava, sentia que nao era daquele mundo e nao concordava com as regras daquele lugar que era justamente a lei da selva, do mais forte esmagar o mais fraco e isso era revoltante sobretudo para ele um jovem demasiado rebelde ainda que nao agressivo.

Fora ela que era ali Psicologa que o ajudara um pouco a aceitar aquela realidade e a adaptar-se aquele mundo e a forma como o mesmo funcionava. Ela tinha-o ajudado de facto mas estaria a ajuda-lo a envolver-se com ele daquela forma quando nao era livre para isso?

O que acontecera depois era melhor esquecer, era uma longa historia mas fora ela a unica mulher por quem ele julgava estar apaixonado isto se aquilo era realmente amor? Tudo chegara ao fim da pior maneira e depois de as coisas terem dado para o torto ela falecera num acidente de automovel. Dela recordava muitas coisas boas mas as negativas tinham tambem muita forca e no fim ate estavam do lado mais pesado. Sem saber se aquilo era realmente amor ou obsessao vivera com ela na cabeca anos e anos e foi ate envelhecendo, tinham-se passado decadas e ele entretanto conseguira terminar os estudos na faculdade com ajuda da heranca dos avos paternos e quanto ao Curso de Formacao Profissional ficara pelo caminho. Fora todo aquele episodio que lhe dera inspiracao para escrever O Amor Existe? Uma historia de um amor sem sucesso e com final triste que acabara agora na ficcao de um romance como acabara tantos anos antes de forma real. Sempre que pensava em tudo aquilo vinha-lhe a mesma ideia a cabeca, a vida era uma merda.

Estava a tomar o Pequeno-Almoco naquela manha indo de encontro com os seus gostos a Empregada fizera-lhe umas torradas e uns ovos mexidos com bacon acompanhados de sumo de laranja puro e caseiro como ele gostava. O telemovel tocara e comecara a sentir que estava a descer do ceu ja que do paraiso descera quando saira da cama mas agora era altura de o fazerem aterrar na terra. Era da Editora que lhe queria apenas informar que a data do lancamento do livro estava marcada e que iriam fazer uma pequena festa com Jantar incluido num hotel em Sintra, o sitio que ele mais gostava em todo o mundo. Henrique conhecia Veneza, Paris, Roma, Milao, Nova Iorque mas para ele nao havia nada como Sintra.

O Jornalista era um homem habituado aquelas situacoes, aquelas festas e conhecia, sabia perfeitamente quem ia la estar e eram os homens e mulheres que faziam a literatura em Portugal andar para a frente escritores com desejo e vontade de escrever, editores procurando obras que lhes pudessem dar um bom lucro de vendas e criticos que se sentiam donos e senhores do mundo mas que no fundo eram incapazes de fazer melhor. Henrique parecia esquecer-se de que os criticos na maioria eram seus colegas jornalistas como ele.

Pensou e considerou que sendo ele proprio uma das razoes daquele evento devido ao lancamento do seu livro era como que impensavel ir aquela festa e sobretudo aquele Jantar sozinho, tinha que arranjar alguem mas quem, afinal? Sentia-se entre a espada e a parede nao lhe surgia ninguem na ideia e estava com pouco tempo para encontrar uma solucao tinha menos de uma semana para encontrar alguem que o pudesse acompanhar naquele evento da apresentacao do livro e do lancamento do mesmo e no final do dia ja a noite ao Jantar na mesma noite.

Fora trabalhar mas a ideia nao lhe saia da cabeca e so via uma solucao ia contratar uma Escort Girl para o acompanhar. Nao era a primeira vez que ele recorria a uma tipa dessas mas daquelas com classe que estavam em casas de luxo nao uma vagabunda qualquer da rua. Henrique pensava em quantas encontros tivera com mulheres dessas sem sentir nada por elas apenas para satisfazer a sua vontade ou capricho de estar com esta ou aquela rapariga e esse era um segredo seu bem guardado em que ele era mais um das personalidades importantes que frequentava aquele casarao e que justificava alguma das suas visitas a Sintra onde para ir com uma rapariga para o quarto nao ficava em menos de uma centena de euros. O que era isso para ele que ganhava milhares por mes isto se nao estivesse em uma reportagem no exterior numa missao de alto risco e tinha sido com essas missoes que ele conseguira comprar aquele apartamento enorme para um homem so de luxo com vista para o Tejo no Parque das Nacoes, o carro desportivo ultimo modelo da Porche e o dinheiro para conseguir fazer os investimentos de sucesso que fizera.

Era um homem que se poderia considerar rico, bem sucedido mas faltava-lhe o mais importante, faltava-lhe sentir, saber o que era realmente amar uma vez na vida que fosse. Nao adiantava ter accoes na de empresas de sucesso, ter um programa semanal na televisao que era dos de maior audiencia, nao adiantava ter dinheiro e outros luxos se a sua vida era aquele vazio imenso sem amor tudo o resto era um vazio.

Chegara ao casarao como sempre discretamente e fora recebido pela Governanta do mesmo que geria aquilo que se podia chamar claramente um Bordel de luxo que entre a comunidade de homens que o frequentavam chamavam-no de "Moulan Rouge Portugues". Dona Glorinha viera como sempre recebe-lo sempre com enorme simpatia e agrado e nao era para menos cada vez que o Sr Dr Henrique Caetano ia ate ali deixava pelo menos uns duzentos a quinhentos euros. O servico daquelas meninas nao era para quem queria mas para quem podia.

Dona Glorinha ouviu o que Henrique queria e prometeu-lhe arranjar uma solucao logo ali no momento pensou em alguem. A Governanta falou a Henrique de uma ucraniana recem chegada aquela casa que estava a deixar os homens loucos. Henrique lembrou que naquele momento nao estava a procura de alguem so para a cama e era fundamental saber que a rapariga alem de apresentacao tambem se sabia comportar numa situacao daquelas num evento onde ia estar muita gente importante.

Larissa depois de apresentada a Henrique mostrou ser a pessoa ideal para o que ele pretendia. A rapariga era apresentavel, mostrou ser uma rapariga culta e inteligente, discreta fora dali ninguem ia adivinhar que se tratava de uma Escort Girl alugada para fazer companhia a Henrique unicamente para ele nao passar pela vergonha de ir a apresentacao e lancamento do seu livro sozinho.

A ucraniana era uma mulher tipica de Leste da Europa alta, esbelta, olhos azuis e cabelo loiro comprido ondulado caindo-lhe pelas costas em cascata. O evento seria so dentro de dois dias mas Henrique olhou-a e sentiu pela primeira vez na vida que nao se importaria de passar o resto da sua vida com uma mulher como aquela. Seria aquilo amor ou simples desejo e atraccao? Queria sair com ela ir comprar-lhe um vestido para a importante noite para a qual Henrique a procurara e queria leva-la a jantar.

Larissa mostrou-se diferente das outras era afavel, preocupada com ele, parecia ser uma pessoa sincera, simpatica e nao se mostrou intimidada quando Henrique lhe pediu que fala-se mais de si.

A jovem embora nao se mostrasse intimidada nao deixou de demostrar um certo sentimento de surpresa os clientes nunca lhe pediam tal. Queriam apenas sevir-se dela para aquilo que lhe pagavam. Larissa falou-lhe da Ucrania e em como tinha saudades da sua terra mas ao mesmo tempo queria ficar em Portugal mas teria antes que conseguir trazer os pais, irmaos e o filho para Portugal para ser verdadeiramente feliz em Portugal. Falou-lhe entao depois do filho ainda crianca que estava em Kiev com os seus pais e era fruto do seu casamento com o seu falecido marido. Por fim falou-lhe daquilo que fazia na Ucrania e Henrique entendeu finalmente porque razao ela falava tao bem com as pessoas, era Psicologa e queria voltar a se-lo em Portugal quando estivesse autorizada para exercer em Portugal mas antes vinha a parte burocratica de tratar da papelada, documentacao e da sua legalizacao em Portugal.

Sairam dali foram ao Centro Comercial a uma boutique de roupas de luxo Henrique comprou-lhe um vestido carissimo e uns sapatos e a jovem comecou a pensar o que iria ele querer em troca de tudo aquilo para alem da sua companhia ja que ele nao parecia interessado em leva-la para a cama ou nao tinha isso como sendo prioritario? Larissa comecou igualmente a pensar se nao seria igualmente injusto depois de toda aquela despesa cobrar-lhe fosse o que fosse pelo seu servico de acompanhante, iria faze-lo de forma gratuita, estava decidido e fora de questao faze-lo de outra forma.

Deram por eles no apartamento dele calmamente a beber um Moscatel e a conversa animadamente e ambos cada qual a sua maneira pensou no seu intimo que aquela tinha sido apenas a primeira de muitas vezes que ela ali estava em casa dele. Era ja manha e sorriram por nem terem dado pela manha passar e Larissa antes de se oferecer para ir preparar o Pequeno-Almoco para os dois finalmente ganhou coragem e perguntou-lhe porque ele nao era igual aos outros e nao quisera, nao fizera nada para fazer amor com ela? Ele tinha pago o suficiente para isso no entanto recusara, nao fizera a minma aproximacao e ate se afastara quando ela tentara se aproximar.

- Gosto de guardar as melhores coisas para o fim - sorriu ele. - Vamos ver, vamos ver o futuro.
- Fodas, gostava de ter um homem como tu so para mim para sempre - respondeu ela.
- Vamos ver, vamos ver - respondeu ele novamente.

Terminaram aquele dialogo com um beijo na boca a unica caricia intima que tinham tido naquela noite antes de Larissa ir fazer o Pequeno-Almoco para eles.

O dia do evento chegara e Larissa estava divinamente bela embora de forma discreta. Estava bem perfumada mas nao de forma exagerada, estava maquilhada mas nao demasiadamente pintada. Estava bem vestida e calcada e isso a Henrique o devia. O mesmo ficara ainda mais encantado quando soubera que ela recusara um unico centimo pelo trabalho daquele dia de ir com ele como sua acompanhante ao evento e ao Jantar e ainda fizera questao de lhe devolver o dinheiro que ele pagara a Gloria para sair com ela na noite anterior alegando que ele nao era de forma alguma obrigado a pagar pelo que nao tinha feito e ao que tinha direito.

- Vamos faze-lo hoje no final da noite - declarou ele - Fiz reserva numa suite de um hotel.
- Tudo bem vamos faze-lo mas sera de graca tambem - revelou ela e continuou - tu Henrique es diferente dos outros a ti nunca te poderia exigir dinheiro.
- Entao e a mim, exiges o que?
- De ti quero algo mais importante, de ti Henrique, quero amor, quero ser amada se bem que isso nao se pode exigir a ninguem.

Ele sem ser o Anfitriao e o Organizador de todo aquilo como era o lancamento do seu livro foi visto como sendo o centro das atencoes e Larissa estivera sempre muito bem ao seu lado. Quando chegou o momento de ele ir fazer o seu discurso com a apresentacao do livro, fazer os agradecimentos da praxe, etc olhou na direccao ds jovem ucraniana e fez uma dedicatoria a alguem ainda que sem frisar nomes.

O Jantar fora agradavel mas Henrique escapou-se dali na primeira oportunidade que tivera logo depois dos cafes terem sido servidos, despediu-se do Editor e foi a sua vida com Larissa. Finalmente o hotel esperava por eles, era altura de irem ter o que ambos mais queriam.

Henrique achara tudo maravilhoso e era agradavel dormir com alguem do seu lado, sobretudo de alguem como Larissa. Sabia no que ia dar tudo aquilo e nao havia volta a dar ela seria aquela companheira no futuro que sempre lhe faltara no passado. Ainda era cedo mas era mais do que certo que a iria pedir em casamento em breve. Era ja de manha e ela acordara, abracara o seu corpo nu junto do seu e beijara-o sentia-se verdadeiramente apaixonada por aquele homem quase vinte anos mais velho. Olhou sorridente e perguntou-lhe.

- Entao e agora, ja acreditas de que o amor existe?
- Sim - sorriu ele - o amor existe e o meu es tu.

                                                                                                             Manuel Goncalves









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