quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Memorias de Uma Simples Puta



Era tempo de fazer as malas e de partir anos depois eis o momento com que tanto sonhara. Reconhecia que ate tinha feito algumas amizades por ali que jamais iria esquecer mas aquele nao era o seu lugar.

Tivera e apresentara varios nomes aos inumeros clientes que tivera mas nenhum era o seu verdadeiro. Nao fora ela que criara essa lei, ja era uma regra daquele meio ter-se um nome de guerra. Ela fora Sonia, Valeria, Sandra, Adriana, Marisa e tantos outros nomes tantas vezes fora Maria com qualquer outro nome mas o seu verdadeiro nome esse jamais o revelara e poucos foram os clientes que souberam verdadeiramente o que ela pretendia da vida. Tinha que haver uma certa distancia para evitar envolvimentos mais intimos e o nascer de sentimentos mais fortes, trocando tudo por palavras mais faceis de entender e deixando de parte a Psicologia de sentimentos, etc ali tinha que haver uma certa frieza e para a maioria dos clientes ela era uma Prostituta, Acompanhante ou para os mais rudes uma simples Puta.

Criara ali longe da sua Terra amizades e odios que iria levar na sua memoria e vivera muitos momentos que contados dariam para escrever um livro e isso nao estava fora de questao, agora era livre de o fazer, de escrever o livro com que sempre sonhara, Memorias de uma simples Puta.

Vivera o presente sempre pensando no futuro mas sem esquecer o passado e fora esse passado ou certas coisas que tinham acontecido no mesmo que a faziam estar ali, que tinham feito ela ter tido aquela vida depois do pai a expulsar de casa quase a murro e pontape depois de saber que a mesma estava gravida. Que vergonha para aquele Pastor Evangelico quando se soubesse que a filha era mae solteira! Nem querendo saber se a filha estava gravida daquele homem com quem ele praticamente a obrigara a namorar.

Eram outros tempos e havia pouca tolerancia sobretudo num meio pequeno como aquele numa Terra como aquela do Nordeste brasileiro rodeado de gente conservadora e cheia de preconceitos. Era para la que ela queria voltar agora. Tinha que ser para la, afinal ela planeara essa vinganca durante anos e anos a fio.

Fora corrida da sua propria cidade por todos. A barriga estava a crescer e ninguem, absolutamente ninguem lhe dera a mao ou uma fatia de pao naquela cidade e ela criara meios para agora fazer justica pelas proprias maos, queria ter ajoelhados aos seus pes aqueles que lhe tinham virado as costas, negado abrigo por uma noite que fosse ou feito qualquer coisa que fosse por ela.

Partira para a capital, ali ja lhe tinham dito e demostrado que ja nao era o lugar dela. O lugar de uma sem vergonha que sujava o nome, o bom nome da sua familia, o nome que nao sabia honrar era junto das putas as suas semelhantes. Ali era um lugar de gente decente, gente de bem, de caracter, que sabia honrar e cumprir com os padroes da decencia e ela estava longe de cumprir com todos esses requesitos.

Partira no autocarro da noite com destino a Brasilia com uma mala com meia duzia de tralhas e o vestido que trazia no corpo que era quase um trapo envelhecido sem cor mas nao podia ser de outra forma, nao tinha outra maneira de sair dali e faltava-lhe nao apenas dinheiro mas solucoes para o seu problema. O seu futuro estava cheio de incertezas mas estava certa que era bem pior ficar por ali, faltavam cinco meses para o filho ou filha nascer. Ia a caminho de Brasilia para casa de uma amiga que por sorte estava de ferias no momento ali no Brasil mas que vivia a alguns anos em Portugal, prometera leva-la para la se a mesma quisesse e comecava a pensar que era a melhor solucao e caminho. Como todos lhe haviam dito ela ja nao pertencia aquele lugar, ja nao fazia parte daquela gente. Queria vingar-se de todos mas em especial do homem que a colocara naquela situacao, que lhe roubara a virgindade e pureza, que lhe tirava o privilegio de ser a filha do Senhor Pastor, queria vingar-se dele, mesmo sendo ele quem era. O pai do filho que ela trazia na barriga.

Brasilia era grande demais para uma moca da uma pequena cidade do interior mas nao era maior que o Mundo em que ela vivia. O seu futuro sabia que nao estava ali mas habituara-se a vida da capital desde o primeiro instante.

Estranhava que a amiga lhe oferecesse presentes caros para ela e para o bebe, que lhe pagasse as contas todas e lhe dissesse que nao se preocupasse com nada, que ia correr tudo bem com o nascimento do filho e que ela lhe pagaria tudo isso quando chegasse a Portugal, comecasse a trabalhar e estivesse com a vida organizada. Ela nao se mostrava tao preocupada porque era isso mesmo que pretendia e queria, ir para Portugal, para qualquer lado longe dali mas tinha uma pergunta em mente, sera que iria gostar do trabalho em Portugal, nem sabia do que se tratava?

Nas ultimas semanas de gravidez a amiga trouxe-lhe uma ma noticia que ela recebera friamente e com um enorme sorriso interior, o pai do filho que iria nascer em breve tinha morrido num acidente de trabalho. Agora sim a primeira parte da vinganca estava cumprida, sentia que a justica tinha sido feita e sem pai ja o filho estava antes do mesmo morrer.

A hora do parto chegara e as complicacoes estavam a ser muitas o parto esta a ser muito dificultado devido a posicao que o bebe ainda se encontrava, adivinhava-se nova tragedia e fora isso que acontecera o bebe nascera morto e ela nao podia ter mais filhos.

Estava sozinha no Mundo. Durante nove meses carregara aquela crianca para as coisas terminarem assim e tudo isso ja sem falar nas humilhacoes que passara com aquela gravidez. Fora para isso que lutara contra tudo e contra a todos, fora para isso que recusara a fazer o aborto que seu pai exigira que ela fizesse para esconder a vergonha e evitar todo o falatorio que aquilo iria provocar e caso nao cedesse seria expulsa de casa e proibida de voltar a chamar-lhe de pai. Lutara contra a todos e contra a vontade de todos e agora tudo terminava assim com ela a colocar uma Coroa de flores na vespera de partir para Portugal.

Em Portugal talvez pela Lingua ser a mesma e a Cultura das pessoas ser um pouco semelhante a adaptacao fora facil, mesmo depois de saber e descobrir qual seria ali o trabalho a fazer. Aceitara na mesma, estava disposta a tudo para voltar um dia ao Brasil triunfante e ja que do sitio de onde vinha as pessoas lhe chamavam de Prostituta por ela ter ficado gravida e ser solteira, porque nao prostituir-se?

A amiga do Brasil em Portugal era na verdade dona de um apartamento onde estava situada uma das melhores casas de massagens de Lisboa e ali comecavam mas devido a concorrencia das mais novas e ao passar dos anos nao aguentavam muito tempo. Ela estivera naquela casa dez anos e fora ali que ganhara mais dinheiro. Foram banqueiros, empresarios, foram noites e noites como acompanhante e milhares de contos ganhos.

Comecara a investir o dinheiro que ganhava na bolsa e em outros negocios e os investimentos comecavam a multiplicar-se mas nao era o suficiente para aquilo que ela pretendia, queria mais, muito mais nao por ganancia mas por necessidade.

Nunca se apaixonara por nenhum cliente assim como nunca tinha sentido prazer com nenhum dos clientes. Fizera amizade com alguns dos homens com quem dormira, com quem fizera amor e alguns alem de lhe darem presentes de luxo chegaram a deixar-lhe alguma lembranca em testamento.

Os anos passavam e ela deixara o apartamento para ir trabalhar num bar onde ja nao ganhava tanto como nos primeiros anos no entanto no bar ganhava mais do que ganhava nos ultimos anos no apartamento. Ali comecara a descobrir outras realidades daquela profissao para ganhar algum dinheiro a mais comecara por praticar Sexo Anal, Sexo Oral sem proteccao e comecava a achar tudo aquilo nojento e que as raparigas do antigo apartamento onde trabalhava comparadas com as do bar eram verdadeiras princesas. Os clientes tambem eram de outro tipo, nao eram ricacos, nao eram tao bem formados, simpaticos e ate delicados.

Ela conseguira finalmente o que queria com os milhares que ganhara ao longo daqueles quase vinte anos em Portugal e os investimentos que fizera tinham rendido muito dinheiro e fora assim que comprara um pequeno predio na sua terra natal e o transformara naquilo que iria vir a ser uma pesquena Pousada Turistica mas ainda precisava de mais algum dinheiro e tambem comecara a sentir-se doente.

Comecara a trabalhar na rua e ai era ainda mais complicado, mais sujo mas era o unico sitio onde as mais velhas ainda ganhavam algum dinheiro. As colegas tambem eram diferentes e de outros estatutos ali na rua tambem nao havia miudas novas, universitarias, ingenuas com medo de se iniciarem naquela vida. Eram velhas e ja nao eram putas de luxo mas simples putas que estavam em fim de carreira. A maioria delas, das simples putas, tinham na ideia comprar uma casa e alugar quartos para as mais novas fazerem aquela vida e venderem o corpo como ela sempre fizera.

Ela era simplesmente ela porque ninguem conhecia, sabia o verdadeiro nome o nome de guerra esse mudava quase todas as noites ou todas as semanas. Nao tinha amigas apenas conhecidas, nao tinha amigos apenas clientes. Ela comecara a pensar que nao tinha absolutamente ninguem e que mais uma vez estava num lugar que nao era o seu e que nao lhe pertencia.

Sentia-se fraca, doente, estava quase com cinquenta anos, com quase trinta anos daquela vida e de simples puta. Foram as ultimas coisas de que se lembrara antes de desmaiar e de ser levada para o hospital e temia-se o pior. Teria ela apanhado o Virus da Sida?

Os exames demorariam alguns dias ainda mas ela estava com esperanca de que o teste que fizera para ver se estava contaminado com o Virus da Sida desse negativo. Tinha que dar negativo, tinha essa esperanca, quase certeza. Quantas amigas vira morrer com aquela maldita doenca sem cura mas com ela tinha que ser diferente.

Ela tinha ja comprado o bilhete de aviao e ia-se embora mal os testes saissem era demasiadamente velha para manter-se naquela vida e se nao fosse agora nao teria sequer tempo para realizar os seus objectivos na sua terra natal. Nao queria vingar-se mas mostrar aquela gente que estavam enganados a seu respeito, queria ver algumas pessoas ajoelharem-se a seus pes ate ficarem com a espinha torta mas na realidade nao tinha nenhum verdadeiro plano de vinganca. A unica pessoa de quem realmente sentia que se queria vingar morrera muitos anos antes e era nem mais do que o pai do seu filho que morrera a nascenca.

Naquela manha estava nervosa e impaciente era o dia de ir a clinica buscar o resultado das analises que fizera. O facto de ja se sentir melhor davam-lhe ainda mais esperanca e confianca de que tudo iria acabar bem.

Estacionara o carro perto da clinica e olhando para o lado reparara que estava ali uma Igreja. Ela pensara que em todos aqueles anos nunca entrara numa Igreja, em todos aqueles anos nunca orara a Deus nem sequer pela alma do seu filho que estava na companhia daquele mesmo Deus em quem ela nunca deixara de acreditar. Nunca era tarde e mesmo antes de entrar na clinica para ir buscar o teste com o resultado das analises ao Teste da Sida dera por si ajoelhada diante do altar a rezar a Deus, a rezar pelo filho que perdera e a jurar que nunca mais se iria prostituir, nunca mais, jamais, seria uma simples Puta. Nunca mais venderia o corpo, nunca mais iria para a cama com um desconhecido so porque ele depois de se satisfazer lhe iria dar algum dinheiro. Fosse qual fosse o resultado das analises no dia seguinte ia vender o carro, entregar a casa e ir-se embora para o Brasil.

Abrira o envelope com nervosismo e so naquele momento comecara a pensar na sua reaccao se o teste desse positivo. Tudo estaria perdido, irremiediavelmente perdido. Naquele espaco de tempo de receber e abrir o envelope com o resutados dos testes e saber se podia continuar a viver ou se tinha os dias contados e a morte a espera ela tivera um flash de memoria de muitos dos momentos que vivera, tempos passados que ja nao voltavam vieram a sua memoria.

Chorou... depois sorriu o teste tinha dado negativo e as lagrimas eram de felicidade e agora era tambem tempo de cumprir com o seu juramento nunca mais voltaria a prostituir-se, nunca mais seria uma simples Puta e viera-lhe a ideia entao escrever um livro de memorias, Memorias de uma simples Puta, claro. Nao lhe viera a ideia era procurar saber a razao daquele mal-estar, daquelas tonturas e na verdade aqueles exames que fizera apenas lhe garantiam que nao estava infectada com o Virus da Sida.

A viagem fora longa atravessara o Oceano e estava agora em casa. Tudo estava diferente e ate a maioria das pessoas eram outras. A mae e o pai tinham ja morrido a alguns anos e a familia era pequena composta praticamente por duas geracoes de primos e primas que tinham ido a correr conhecer a prima quase rica que chegara de Portugal.

Sentara-se numa cadeira no seu quarto junto da janela a ver o mar, a ver a praia que tanto amava na sua infancia e onde compartilhara tantos momentos e memorias com os parentes e amigos. Sentia-se cansada a viagem fora longa e fora dormir um pouco. Ela na verdade Maria Vitoria jamais acordara, morrera ali vitima de um Aneurisma cerebral, era essa a razao do seu mal-estar, das suas tonturas e ate do seu desmaio. Morrera em casa, junto da sua Terra que a expulsara e que a acolhera de novo e certamente morrera feliz mas era chegada a sua hora de ir ao encontro de quem mais amara na vida. Ia finalmente encontrar o filho que lhe morrera a nascenca, morrera quando chegara o seu momento, era o destino nao havia nada a fazer.

                                                                                                      Manuel Goncalves




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