quarta-feira, 19 de abril de 2017

A Tragedia do Gran Circo Norte-Americano em Niteroi, no Brasil



Uma simples ida ao circo pode ser algo de divertimento em familia mas as vezes tudo se pode alterar e tudo pode ser diferente. Jamais podemos saber quando o mal nos bate a porta e na tragedia que se seguiu o caso nao foi diferente. Em segundos a magia, a alegria das criancas deixou de existir e passou a ser terror, mortes e mais mortes numa enorme tragedia.

Era uma noite de espectaculo como outra qualquer, segunda noite de espectaculos na digressao a Niteroi e o circo estava cheio o que fez aumentar ainda mais os numeros de semelhante tragedia que o mundo circense brasileiro jamais conseguiu esquecer. Foi um momento de tragedia e luto que comecou com um simples espectaculo de circo onde onde sabemos a alegria e boa disposicao e muitas vezes evidente na tarde de 17 de Dezembro de 1961 as criancas ainda podem ter rido com os palhacos mas quando a actuacao se aproximava do fim muitas acabaram por simplesmente perder a vida no que foi um verdadeiro atentado e massacre causado pelo desejo de vinganca de outros. E com tudo isto mais uma vez aqui estou eu a escrever acerca de um tema e assunto que se sucedeu no Brasil.

Os numeros da tragedia foram de facto muito altos mais de 350 mortos logo ali no local, inumeros feridos que vieram a morrer dias depois e infelizmente ainda mais triste foi o facto de na maioria serem criancas. A agravar tudo foi o facto de a classe medica do local no mesmo dia estar de greve.


A Tragedia do Gran Circo Norte-Americano foi um crime originado por  um incendio provocado por um fogo posto ocorrido em Niteroi um importante Municipio do Estado do Rio de Janeiro, na Regiao Sudeste do Brasil, em 17 de Dezembro de 1961, onde morreram mais de 500 pessoas, 372 delas no momento e local da tragedia, e mais de 800 sofreram ferimentos numa plateia que contava com cerca de tres mil pessoas.

O Gran Circo Norte-Americano teve a sua estreia em Niteroi em 15 de Dezembro de 1961. Os anuncios publicitarios diziam que era o mais completo Circo da America Latina - tinha cerca de 60 artistas, 20 empregados e quase que se poderia considerar uma Arca de Noe com 150 animais. O Dono do Circo, Danilo Stevanovich, havia comprado uma lona nova, que pesava seis toneladas, e seria de nylon - detalhe que fazia parte da propaganda do Gran Circo Norte-Americano. O Circo chegou a Niteroi uma semana antes da estreia e instalou-se de imediato na Praca Expedicionario, no centro da cidade.

A montagem do Circo demorava muito tempo e levava muita mao-de-obra. Stevanovich viu-se obrigado a contratar cerca de 50 trabalhadores temporarios para a montagem do mesmo. Um deles, Adilson Marcelino Alves, o "Dequinha", tinha antecedentes criminais por furto e problemas mentais. Trabalhou somente dois dias e foi despedido por Danilo Stevanovich. Dequinha ficou inconformado com o seu despedimento e apesar do mesmo supostamente continuou ali na zona do Circo passando a rondar constantemente as imediacoes do mesmo.

Na estreia, em 15 de Dezembro de 1961, o Circo estava tao cheio, que Danilo Stevanovich se viu obrigado a mandar suspender a continuidade da venda de bilhetes, para frustracao de muitos presentes que ainda estavam na fila da bilheteira para comprar o seu bilhete. Nessa mesma noite, Dequinha tentou entrar no Circo sem pagar, mas supostamente foi visto a tentar faze-lo e impedido de entrar pelo Tratador de elefantes, Edmilson Juvencio.

No dia seguinte, 16 de Dezembro, sabado, Dequinha continuava a andar a rondar as proximidades do Circo e comecou a provocar um outro funcionario do mesmo desta vez foi o Arrumador Maciel Felizardo, que era constantemente acusado de ser o culpado pelo despedimento de Dequinha. Seguiu-se uma inevitavel discussao e Maciel Felizardo agrediu Dequinha, que reagiu e jurou vinganca.

No dia seguinte, na tarde do Dia 17 de Dezembro de 1961, Dequinha se reuniu com Jose dos Santos, o "Pardal" e com Walter Rosa dos Santos, o "Bigode", e falaram acerca do plano de lancar fogo ao Circo. Eles os tres se encontraram num local denominado Ponto de Cem Reis, na fronteira do Bairro Fonseca com o Centro, e decidiram por o plano em pratica e avancar com a ideia de lancar fogo no Gran Circo Norte-Americano. Um dos comparsas de Dequinha, o responsavel pela compra da gasolina, advertiu o chefe da lotacao esgotada do Circo e havia o iminente risco de mortes. Nada parecia demover Dequinha da sua ideia de se vingar e estava mesmo completamente irredutivel nada o demovia de seguir em frente custasse isso as vidas que custasse: queria vinganca, somente pensava em vinganca e dizia que Stevanovich tinha uma grande divida com eles e com aquela vinganca ele queria certamente saldar as contas.

Com tres mil pessoas na plateia, faltavam somente ja 20 minutos para o espectaculo terminar, quando uma Trapezista deu conta do incendio. Em pouco mais de somente cinco minutos, o Circo foi completamente devorado pelas chamas. Logo ali 372 pessoas morreram na hora e, aos poucos, varios feridos graves foram morrendo, chegando entao a tragedia a um numero com mais de 500 mortos, dos quais a lamentar o facto 70% serem criancas. Ironicamente, a fuga de uma elefanta que conseguira fugir de sua jaula, foi o que acabou por salvar a vida a imensas pessoas. O animal de grande porte com a sua forca arrebentou com parte da lona da tenda, abrindo caminho e facilitando assim que um maior numero de pessoas pudesse fugir. A lona, que chegou a ser anunciada como sendo de nylon, era, na verdade, feita de tecido de algodao revestido de parafina, um material atamente inflamavel.

Por azar e coincidencia, naquele dia, a Classe Medica do Estado do Rio de Janeiro estava em greve. O Hospital Antonio Pedro, o maior de Niteroi, estava fechado. A populacao tratou de arrombar a porta a forca e, os medicos que estavam em greve foram sendo convocados atraves do radio, pelos soldados do exercito, os quais pararam com a greve e foram comparecendo no hospital de imediato. Medicos de clinicas privadas tambem foram atender no hospital. Inclusivamente, os cinemas e teatros de Niteroi, Rio de Janeiro e outras cidades vizinhas interromperam seus espectaculos para averiguar se haveria medicos entre o publico presente, tal nao foi a dimensao da tragedia. Padres tambem foram convocados de emergencia, para darem o Sacramento da Extrema-Uncao as vitimas que ja se sabia que nao tinham hipotese de sobrevivencia. Nos dias seguintes, varias personalidades da elite fluminense e, brasileira no geral, deslocaram-se a Niteroi para prestar o maximo de apoio e auxilio as vitimas. Entre essas personalidades, destacava-se o entao Presidente, eleito naquele mesmo ano, Joao Belchior Marques Goulart (1919-1976).

As agencias funerarias nao tinham maos a medir, tal era o numero elevado de caixoes que eram necessarios, para enterrar as vitimas mortais, o ainda Estadio Caio Martins (agora Estadio Mestre Ziza) foi transformado numa oficina provisoria para a construcao rapida de urnas, com carpinteiros da regiao a trabalharem dia e noite. Os cemiterios municipais de Niteroi ficaram com a lotacao esgotada; assim, uma roca no Municipio de Sao Goncalo, vizinho da cidade enlutada pela tragedia, Niteroi, acabou por ser usada de urgencia como cemiterio para enterrar os restantes corpos.

As investigacoes da Policia comecaram de imediato e com base no depoimento de funcionarios do Circo que assistiram e acompanharam as ameacas de Dequinha, ele acabou por ser preso em 22 de Dezembro de 1961. Os cumplices Bigode e Pardal tambem acabaram por ser presos mais tarde.

Em 24 de Outobro de 1962, Dequinha foi condenado a 16 anos de prisao e a mais seis anos de internamento num hospital para doentes mentais, como medida de seguranca. Em 1973, menos de um mes depois de fugir da prisao, foi assassinado. Bigode recebeu uma pena de 16 anos de prisao e mais um ano a cumprir numa colonia agricola. Finalmente, Pardal foi condenado a 14 anos de prisao e mais dois em uma colonia agricola.


A historia do incendio do Gran Circo Norte-Americano foi retratada no Programa Linha Direta, da Rede Globo, em 29 de Junho de 2006, sob o nome Linha Direta Justica. O Dono do Circo, Danilo Stevanovich, foi representado pelo Actor brasileiro Dalton Vigh de Sousa Vales (1964).

A tragedia foi tambem assunto do Livro "O espectaculo mais triste da terra - O incendio do Gran Circo Norte-Americano", do Jornalista Mauro Ventura. Elaborado a partir de uma extensa pesquisa desenvolvida pelo Autor, durante dois anos e meio Ventura conseguiu entrevistar sobreviventes e pessoas que de alguma maneira se envolveram com o tragico acontecimento, como medicos, voluntarios, autoridades e escuteiros. Ele tambem entrevistou o famoso Cirugiao Plastico, Professor e Escritor brasileiro Ivo Helcio Jardim de Campos Pitanguy, que chegou a atender e tratar de vitimas da tragedia, alem de parentes de Jose Datrino (1917-1996), mais conhecido como Profeta Gentileza. O livro de Ventura, lancado em 2011, quando a tragedia completava 50 anos, aponta para controversias como o numero de mortos e as causas do incendio.

Varias foram as pessoas que ficaram de alguma forma ligadas a tragedia eis dois casos de destaque:

. O Profeta Gentileza, nome pelo qual ficou conhecido Jose Datrino, Motorista de camioes, que, afirmava que no dia da tragedia havia tido um chamado a vida espiritual, e passou a residir no local do incendio, iniciando assim uma missao nao terrena.
. George Savalla Gomes (1915-2006) mais conhecido como Palhaco Carequinha e que foi um dos palhacos brasileiros mais notorios ajudou no financiamento para a construcao de um cemiterio em Sao Goncalo, para enterrar as vitimas do incendio, que eram muitas para serem sepultadas apenas no Cemiterio de Marui, em Niteroi.


Alguns dos sobreviventes da tragedia que completou 50 anos em 17 de Dezembro de 2011 na mesma altura relembraram a tragedia, guardam na memoria as cenas de terror. Em chamas, a lona do Circo, que afinal era feita de um material altamente inflamavel, ia caindo em gotas de fogo sob a plateia, que tentava escapar em vao apesar de todos os esforcos. Depois de ter sido salva por um Soldado do Corpo de Bombeiros, a reformada Lenir Ferreira, perdeu o marido, os dois filhos, de dois e tres anos, e o bebe que esperava.

- Lembro que o Soldado gritou: "Quem esta com vida ai, levanta a mao" - com muita dificuldade, eu consegui levantar o braco. Eu nao consigo esquecer. Parecia que um guarda-chuva se abriu espalhando gotas de fogo sobre a gente.

A ja bastante idosa traz no corpo ainda as marcas da tragedia. Ela ficou nove meses internada para se recuperar das queimaduras graves que sofreu, que lhe causaram a perda de um dos dedos e de parte do couro cabeludo. Ate aquele momento da entrevista Lemir convivia com cicatrizes por todo o corpo e tinha que usar uma peruca.

- Minha vida ficou totalmente diferente. E como se eu tivesse nascido de novo. Eu queria viver e consegui. Apesar da tragedia, posso dizer que sou uma pessoa feliz.

Para fugir do inferno sobre a lona, grande parte do publico em desespero tentou sair pela estreita saida principal, que, mais tarde, ganhou o apelido de "Corredor da Morte". A porta dos fundos foi a salvacao para os artistas do Circo.

Assustada com toda a confusao, a elefanta Semba disparou a correr em direccao a multidao, esmagando criancas e adultos o que fez certamente aumentar os numeros da tragedia. No entanto, centenas de pessoas conseguiram deixar o Circo pelo buraco que a mesma provocou na lona que ardia em chamas.

O ex-Comandante-Geral da Policia Militar do Rio de Janeiro o Coronel Mario Sergio Duarte era na altura uma das milhares de criancas que estava encantada com a magia do Circo. Aos quatro anos de idade, ele avistou o fogo a tempo de avisar o pai e a irma de cinco anos. Gracas a um buraco cavado no chao, os tres conseguiram escapar.

- O meu pai ficou agarrado entre a estrutura metalica e o chao, porque o buraco era muito pequeno para ele passar. Mas nos conseguimos tirarr ele de la. Lembro quando a lona caiu sobre todo o mundo. Meu pai nao deixou que eu e a minha irma olhassemos para tras. Quando chegamos em casa, minha mae reclamou que estavamos os tres sujos de fuligem.

Inicialmente tambem havia suspeitas de que as precarias instalacoes electricas do Circo teriam causado um curto-circuito. Nenhuma das vitimas do incendio ate hoje recebeu qualquer indemnizacao.

Para lembrar os 50 anos da tragedia, o Jornalista Mauro Ventura escreveu o livro O espectaculo mais triste da terra (Companhia das Letras). A publicacao resgata o drama dos sobreviventes e as historias de solidariedade e heroismo. Mauro conta que, apos o incendio, medicos de Niteroi e ate da Argentina montaram um mutirao para tratar os feridos.

- Os medicos tiveram que lidar com um grande numero de queimados e trabalhar em condicoes precarias, e com o principal hospital da regiao, o [Hospital Universitario] Antonio Pedro, fechado inicialmente. Os medicos, alguns recem-formados, aprenderam ali, naquele momento, a tratar queimaduras gravissimas.

O Cirurgião Plastico Ivo Pitanguy, de 85 anos, que liderou o time de medicos, destaca que o episodio ajudou a desenvolver a especialidade no país.

- Os brasileiros aprenderam a respeitar a Cirurgia Plastica como um ramo importante da Medicina. Antes, existia aquela ideia ligada so a Estetica. Nos recebemos pele da Marinha dos Estados Unidos para fazer o enxerto dos queimados mais graves. Isso era algo novo para a Cirurgia Plastica brasileira. Fizemos um bom trabalho, viramos referencia.


Enquanto os medicos tratavam os feridos e voluntarios enterravam os mortos em um cemitério construido às pressas por causa da tragedia, um homem esqualido e de fala mansa foi morar no terreno do Gran Circo em meio aos destrocos e aos sapatos de criancas que ficaram para tras. Ali, Jose Datrino se despia da figura de pequeno Empresario para dar vida ao profeta Gentileza.

Apos o incendio, Datrino teve uma “revelacao divina” e decidiu mudar-se para Niteroi. O Jornalista Mauro Ventura conta que Gentileza, que morava em Guadalupe, na Zona Oeste do Rio, abandonou a mulher e os quatros filhos para consolar os parentes das vitimas.

No terreno do Gran Circo, Gentileza constrOi o seu 'Paraíso', com horta e poco. Durante quatro anos, ele recebe os parentes das vítimas, que iam ate o terreno para se matar, por exemplo. La, ele começou a esbocar os seus primeiros escritos de gentileza que, mais tarde, chegaram as pilastras do viaduto do Gasometro, no centro do Rio.


Caro(a) leitor(a) nao e facil escrever-se sobre esta ou qualquer outra tragedia sem sentir um pouco de dor embora nao seja nada conosco. Penso que existe uma parte do ser humano no lado sentimental que se chama Humanismo e o mesmo faz aparecer a solideriadade nestes momentos mais dificeis, nestas duras tragedias. Sao nestes momentos que vimos e sentimos que tem pessoas com o seu lado bom. Os medicos estavam em greve e a greve terminou de imediato revela que o sentimento de salvar vidas, essa sua obrigacao valou mais alto do que reclamar qualquer direito. Penso que com essa atitude ficou tudo dito. Ate a proxima.

                                                                                                               Manuel Goncalves












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