Parei o carro, bem no meio da ponte e pus-me a olhar o rio onde ja nao se viam barcos de pesca no rio. Lembrava agora com nostalgia do meu grupo de amigos de infancia onde era raro o dia de Verao que nao iamos para ali tomar banho no rio, para que ir a praia, quando tinhamos ali no nosso rio? Lembrava-me agora tambem de um grupo bem mais pequeno de amigos que combinavam e iam escondidos ver as ciganas do acampamento da aldeia tomarem banho, assim mesmo como estao a pensar ou seja como Deus as tinha posto no mundo.
Fumava agora um cigarro, sim agora que a vida desportiva activa tinha chegado ao fim ja era livre de cometer todos os exageros possiveis e imaginarios, fumar, beber, comer de tudo e agora ja a caminhar para velho e com idade de ter juizo fazer as noitadas que a vida desportiva nao me tinham permitido fazer.
Tinha partido muito cedo logo assim que no fim do escalao de iniciados entrara no escalao de juvenis e fora o melhor marcador de um torneio onde se encontravam as melhores equipas portuguesas e algumas europeias eu da noite para o dia e ainda sem saber ao certo o que era a vida tinha-me tornado um heroi de palmo e meio demasiado grande para um clube tao pequeno de divisoes distritais como o Hoquei Clube de Abrantes.
Despedi-me daquela terra, daquela gente desde entao jamais voltara a ver a leziria, a imagem dos campinos montados a cavalo de vara na mao reunindo o gado bravo, imagem sempre viva quando se recorda o Ribatejo. Agora na aldeia as pessoas olhavam-me com desconfianca, como que dizendo que eu era um estranho forasteiro e que nao fazia parte deles, que aquele lugar nao era meu. Estariam eles a querem-se vingar de todo o desprezo que eu sempre dera ou sentira por aquela gente. Durante toda a minha brilhante carreira jamais fui capaz de lhes dedicar um so golo.
Sai dali levaram-me ainda muido para Lisboa e foi la no grande Benfica que fiz o resto da minha formacao desportiva e me tornei quem me tornei segundo dizem uma lenda viva do Hoquei em Patins. Ganhei campeonatos nacionais, tacas, brilhei nas competicoes europeias, fui campeao, ganhei tudo o que havia a ganhar por Portugal. Fiz parte da geracao de sonho que foi campea do mundo e europeia de Hoquei em Patins. Tive a gloria, o mundo a meus pes. No mundial de Lisboa vi mais tarde o jogo pela televisao cada vez que dentro da grande area eu tinha a bola e preparava o stick para rematar ja o relatador e comentador do jogo gritava golo, impresionante.
O Benfica ja era demasiado pequeno o interesse do Barcelona era enorme mas naquele ano a final europeia estragou tudo Benfica-Barcelona ao intervalo perdiamos por 3-1 o nosso golo de honra era meu, nunca esquecim os gritos do Treinador que ate filhos desta e daquela nos chamou foi com raiva que entramos de novo no recinto de jogo levava raiva, vontade de esmagar e humilhar quem ate agora nos estava a humilhar, foi o jogo da minha vida ate entao e um dos mais importantes da miinha carreira. Eu 3-2, eu 3-3, um colega meu a um passe meu 4-3 eles fizeram por milagre o 4-4. Os espanhois estavam de rastos fisicamente. Faltavam dois minutos para o final do jogo entro na grande area e sou fortemente empurrado deitado ao chao e alem de pisado ainda agredido com o stick do adversario. Deu-se uma enorme confusao no recinto de jogo enquanto me recompunha colegas meus e jogadores adversarios se envolveram a pancada. Era penalty a nosso favor o Barcelona era so a equipa da Europa com mais titulos e aquela onde qualquer Jogador queria jogar mas naquele momento enquanto me levantava para bater o penalty ja tinha decidido que para o Barcelona para uma equipa de jogadores sem fair-play eu nao ia nem que isso custa-sse o contrato milionario ou ate o fim da minha carreira. Frente a frente com o guarda redes dos gajos optei pela marcacao directa em vez de corrida e... golo agora eu era o maior.
Fui vendido para Italia ia representar o Hockey Novara, o maior simbolo de clubes do Hoquei em Patins italiano que nos ultimos tempos andava meio apagado longe nao so das vitorias mas dos titulos. A minha contratacao significava o clube querer mudar a situacao em que se encontrava,sim fui campeao mas nunca considerei aquela gente a minha gente. Ganhei muito dinheiro mas nao tive nenhum contrato milionario como tem os jogadores de futebol talvez tenha ganho dezenas e ate centenas de milhar mas nunca milhoes como os futebolistas.
Campeonato do Mundo em Italia a jogar num clube italiano ia representar Portugal na fase de grupo jogamos com eles e perdemos 3-0 eu nao parecia o mesmo a situacao era de nervos se eu marca-sse se ajuda-sse Portugal a ganhar o jogo eles iam odiar-me. Apesar da derrota passamos o grupo atras deles ate a final apanhamos a Argentina e no acesso a final a Espanha estavamos fisicamente rebentados. Os italianos estavam a nossa espera e que jogo morto foi aquele imaginavel o empate final a 2-2 mais uma vez eu tinha ficado em branco no entanto tinha levado a equipa portuguesa as costas ate a final mas tanto no jogo de grupos como na final nao era a mesma coisa. Os penaltys sao uma lotaria por vezes sem gloria e por vezes ate acaba por ganhar quem menos fez por isso, eles falharam o ultimo penalty e eu ia bater o ultimo dos nossos. Optei por bater o penalty em corrida e depois rematei forte. Era de novo heroi nacional, nos eramos campeoes do mundo e aquela era a geracao de sonho ja que a chamada geracao de ouro era a de juniores de futebol.
A idade comecou a pesar eu estava com 35 anos e decidi terminar ali a carreira tinha ja feito o Curso de Treinador e fiquei dois anos em Italia a treinar o Roller Monza falhei o campeonato mas ganhei a taca, final de contrato eles queriam renovar eu so queria ir embora o convite para treinar a seleccao portuguesa que agora surgia nao era nenhuma fortuna num clube italiano ganharia mais mas chegara a um momento da vida em que o dinheiro ja nao era tudo. Eu tinha um bom carro, negocios a render e mais do que uma casa que mais queria eu se era o meu sonho treinar o meu pais.
Chegara a Portugal dois dias antes fui a Federacao, assinei contracto e iria comecar a trabalhar dentro de semanas por agora so queria gozar as minhas merecidas ferias naquele que afinal e apesar de tudo tambem era o meu lugar, tinha ali nascido eram as minhas raizes era o regresso as origens do meu ser acreditei ainda mais nisso quando entrei numa taberna para almocar e vim um poster meu ainda no auge da minha carreira afinal aquela gente nao esquecera um filho da terra que soube representar tao bem o seu pais.
Manuel Goncalves
Perdi meus fantásticos castelos
ResponderEliminarComo névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...
Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"
Provei o açucar
ResponderEliminarDe sabor amargo
Acordei dormente
Alguém a meu lado
Como um castigo
O dia não passa
Embora ela presa
O sol na vidraça
Nesta indiferença
De não escolher
A crua verdade
Tem rosto de mulher
Violei as leis
Passei entre a chuva
Em tudo procurei
Uma palavra tua
U.H.F, Uma Palavra Tua.