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sexta-feira, 8 de maio de 2026

O Filho Que o Pai Nao Quis.



Ela era um simples Empregada de Limpeza naquela empresa com um predio enorme, com inumeros andares onde entrava gente importante, bastante influente e ate rostos bem conhecidos da televisao, da politica portuguesa.

Era ali que ela, Eliana, conseguira arranjar um emprego logo que chegara do Brasil e fora o seu ponto de abrigo para conseguir ir arrumando a sua vida quando chegara do Brasil, tendo chegado com pouco dinheiro, sem conhecer nada e nem ninguem. Ela chegara como se costumava dizer por ali e na sua terra tambem com uma mao na frente e outra atras mas ela chegava as vezes a adiantar que nao sabia se tinha sido com uma mao na frente e outra atras ou com as duas na frente, ou com as duas atras.

Ao contrario de outras brasileiras que fora conhecendo e algumas haviam se tornado suas amigas ou pelos menos conhecidas Eliana nunca aceitara (embora ofertas nunca lhe tivessem faltado) entrar nesse mundo do sexo, da prostituicao, nunca aceitara se tornar Garota de Programa como diziam na sua terra e ali usavam mais o termo de Escort e ate de Puta. Puta era uma palavra que pouca vezes utilizara no seu vocabulario, quanto mais se tornar em uma.

Com menores ou maiores dificuldades foi vivendo o seu dia-a-dia, foi ganhando o seu pao com o suor do seu rosto e fruto do seu trabalho. Eliana foi conseguindo oportunidades de juntar, poupar algum dinheiro e ter algumas economias, coisa que podia conseguir no Brasil mas com mais dificuldades.

So que o dinheiro nao era tudo na vida e ela sentia saudades da sua terra, da sua gente, dos amigos e da familia. As saudades eram muitas e se lembrava ainda mais deles nos dias de sua folga quando nao pegava outro trabalho para fazer para ganhar mais algum. Sentia orgulho todos os meses quando conseguia mandar uns euritos para a Mae que estava no Brasil e ja tinha alguma idade alem de estar doente. Ela sentia que enviando aquele dinheiro nao estaria so ajudando a mae, nao estaria fazendo nenhum favor, ela estaria cumprindo com a sua obrigacao de filha sobretudo porque a mae praticamente a criara sozinha, sem ajudas de ninguem apos ter ficado viuva quando Eliana ainda era praticamente uma menina de colo.

Comecara a trabalhar ali naquela empresa ganhando um pouco mais que ganhava no antigo e com mais direitos e regalias, talvez porque finalmente tinha conseguido o que tanto queria. Finalmente tinham aprovado o pedido dela, finalmente o SEF tinha entendido que ela apenas queria trabalhar, fazer a sua vida e lhe deram o direito de residir em Portugal e de trabalhar legalmente.

A primeira vez que o vira pareceu lhe que aquela cara nao era estranha e de facto nao era. Salomao Ventura era um politico que aparecia varias vezes na televisao, era um homem poderoso e influente e quando se comecaram a cruzar quase que diariamente nos corredores daquela empresa foi-se criando um clima.

Ela tivera alguns namorados e aventuras no Brasil e ate em Portugal mas nada que fosse realmente muito serio. Perdera a virgindade com o ultimo namorado que tivera no Brasil e talvez esse fosse o seu marido naquele momento, talvez ele estivesse ali junto dela e as coisas nao tivessem sido tao dificeis mas o mesmo acabara por falecer num acidente de mota antes de Eliana decidir vir para Portugal.

Salomao Ventura, ela sabia que ele era casado mas era de facto um homem, vistoso, atraente e charmoso e como que por milagre ele comecara a meter conversa com ela, foram criando certa intimidade ate finalmente ele a convidar para sair pela primeira vez. Ela desculpou-se, tentou recusar o convite, nao tinha nem um vestido decente para sair com ele, mas nao havia mal sem solucao e Salomao estava habituado a ter tudo o que desejava, passou-lhe um cartao para a mao e pediu-lhe que fosse no centro comercial perto da empresa comprar um vestido na sua hora de almoco, eles iriam jantar naquela noite.

Naquela noite depois de beber um pouco de mais Salomao abriu-lhe o caracao e confidenciou-lhe o quanto era infeliz no seu casamento e que so nao se divorciava por piedade da esposa, pelos filhos, pelo bom nome que tinha e sobretudo para manter as aparencias.

Aparentemente segundo ele, ele devia muito a esposa tambem. Era um pobre rapaz que estudara a custo e se formara a conta de muitas dificuldades. Fora trabalhar para o escritorio de advogados que pertencia ao pai da sua esposa e apesar de pobre com o seu talento comecou a ganhar nome e estatuto dentro do escritorio em pouco tempo se tornara o braco direito do futuro sogro. Depois veio o conhecer a filha do senhor Fortunato, o namoro, noivado e por fim o casamento, quando o sogro morreu foi ele quem ficara na frente de tudo e aumentara ainda mais o patrimonio e fortuna daquela familia. Resumindo e concluindo ele devia muito a familia da esposa e sobretudo a ela propria mas eles lhe deviam talvez ainda mais.

Ele era o homem perfeito, um verdadeiro cavalheiro. Vestia bem, sabia conversar, levava ela a lugares chiques e luxuosos. Dera por ela ja demasiadamente envolvida com ele e ainda pior na mesma cama.

O apartamento que ele lhe comprara parecia um palacio com o seu antigo T0 mas ela ia-se perguntando onde era mais feliz, ou quando era mais feliz? Eliana comecava a viver envolvida num enorme sentimento de culpa, nao se sentia bem no papel de amante, nao se sentia bem querendo ser a outra. 

Salonao prometera-lhe que iria deixar a esposa por ela mas nos ultimos tempos estava mais frio, distante e sobretudo mais ausente. Comecara a mandar um representante a empresa onde a mesma trabalhava para a evitar e raramente, muito raramente se encontravam e sempre de fugida, pior ainda, ela estava... gravida.

E claro que ele quando soube quis logo que ela abortasse, foi logo avisando que nao ia querer assumir e nem saber da crianca, ele nao podia ter aquele filho, ele nao podia assumir aquele filho, aquela crianca nao podia nascer, ninguem tinha o direito de lhe meter num escandalo que podia arruinar toda a sua carreira politica, o seu nome, o estatuto que levara anos a conquistar. Nao aquilo nao podia ser verdade, ainda para mais com as eleicoes prestes a chegarem.

Ela aceitou tudo so que sendo assim ja que iria ter que suportar tudo sozinha nao o iria querer voltar a ver nunca mais. Aquele filho podia vir a nao ter um pai mas iria ter a melhor mae do mundo.

A gravidez nao foi algo facil e bastante dificil ate, o pai do bebe, ela fazia meses que nada sabia dele e a pior noticia ainda estava para vir, o bebe podia vir a ser portador do Sindrome de Down e ela estava ali sozinha sem apoio de ninguem enquanto o pai da crianca ia se tornando cada vez mais influente e uma pessoa cada vez mais forte.

Procurou-o no escritorio da sua empresa a muito custo conseguiu ser recebida e fora tratada com bastante frieza. Ele dizia que aquela crianca que estava prestes a nascer nem era certo que fosse dele mas recusava fazer o exames de paternidade, nao queria ter nada a ver com ela e muito menos com aquela crianca. O melhor seria, ja que podia nascer deficiente que morresse a nascenca.

Ela a muito custo foi se mantendo e a mae viera do Brasil com o irmao para a ajudarem naquele momento antes do parto.

O filho nascera apesar de tudo saudavel mas um pouco fragil e fora desde logo amado e adorado por todos a sua volta.

Eliana a muito custo e com ajuda da mae naqueles cinco anos que ja se haviam passado tinha criado o filho sem que lhe faltasse nada mas sem qualquer auxilio e ajuda do pai que nem lhe dera o nome, que nunca quisera ver e saber daquela crianca.

Ela acompanhava as noticias e sabia que Salomao ate tinha sido durante aquele anos Deputado e era um serio candidato a ser um futuro Primeiro-Ministro mas ganhara um estatuto cada vez maior porque ela calara aquele escandalo, nao viera a publico expor tudo aquilo que se passara, nao entrara com um processo na justica contra ele. Tambem quem era ela para lutar contra a influencia ao poder dele?

Leandro completara seis anos e era o dia do seu aniversario. O menino estava feliz com os presentes mas tambem pelo bolo, a mesa cheia de doces. Era tempo de lhe irem cantar os parabens e ele ir apagar as velas do bolo, estavam no meio desse ritual quando a campainha tocara e Eliana fora abrir a porta.

Ela Rute Ventura a esposa de Salomao e queria conversar o Eliana. Parecia calma mas bastante preocupaa, o assunto parecia ser serio. Mas onde ela seria agora perdida ou achada na vida de Salomao? Fazia ja seis anos que eles nao se viam, fazia ja seis anos que ela deixara de fazer parte da vida do mesmo.

Rute explicou que Salomao estava muito doente apesar das aparencias. Ele iria precisar urgentemente de um transplante de medula e ja haviam procurado um dador em todos os bancos de dadores de medula do mundo e nao aparecia um dad compativel. Na familia todos tinham feito os testes e ninguem era compativel. Talvez, se aquela crianca fosse mesmo de Salomao so o mesmo o pudesse vir a salva-lo.

Eliana apesar de tudo, apesar da revolta prometeu que iria pensar se ia aceitar que o filho fosse fazer os exames para ver se era compativel com Salomao, melhor, com o pai adiantou ela.

Era uma grande licao que o mesmo poderia vir a receber, a maior licao de sua vida. O filho a quem ele nao assumira, o filho que ele nem queria que nascesse, o filho que ele sabia que existia mas que sempre desprezara, o filho que ele chegara ao ponto de colocar em duvida que fosse seu podia salvar-lhe a vida.

Eliana recordara a primeira vez que Leandro lhe perguntara pelo pai e ela teve que inventar uma historia qualquer, teve que contar uma historia ao filho acerca do seu pai como lhe contava historias para ele adormecer e so lhe pedira para ele ser sempre um bom menino e que o pai iria sentir muito orgulho nele.

Depois de seis anos ele estava ali na sua frente deitado numa cama, fragil, debilitado e dependente dela dar autorizacao que o treansplante fosse feito porque ja haviam feito os testes de compatibilidade e a resposta aparentemente e que so Leandro podia salvar o pai porque continuavam sem conseguir encontrar um dador que fosse compativel com o mesmo. 

De que valia todo o seu poder, todo o seu dinheiro e influencia se agora estava ali entre a vida e a morte e so aquele filho que ate agora tinha recebido da parte dele ignorancia total e um enorme desprezo o podia salvar.

Ela ia autorizar que o transplante fosse feito sem exigir nada, sem exigir que o pai reconhecesse aquele filho, sem que ele se tornasse seu herdeiro. Iria faze-lo para que no futuro nao se sentisse culpada quando visse Leandro se lamentando por nunca ter conhecido o seu pai apesar do mesmo nao ter querido saber dele, iria avancar com tudo aquilo para que ninguem a culpasse no futuro. Ela ira consentir aquele transplante que era a unica forma de salvar Salomao mas em relacao ao resto iria deixar tudo como estava, competia a Salomao, a sua consciencia decidir o que fazer no futuro, como agir com aquele filho.

Chegara ao hospital com Leandro e apesar de ainda nao se ter feito o trasplante era ja visto pela familia Ventura como um pequeno heroi, um salvador. Rute olhou o menino nos olhos, Salomao sempre quisera um filho e ela so lhe conseguira dar filhas. Como havia sido possivel desprezar aquela crianca tao linda e de olhar tao meigo e timido? Salomao colocara a sua carreira politica acima de tudo e todos, fizera tudo para evita o escandalo que lhe podia custar tudo o que ele construira na sua carreira ate aquele momento porque se tivesse assumido aquele filho em tudo o resto nada teria sido diferente. Ela teria ficado com ele apesar da traicao, o dinheiro, o luxo nada lhe iria faltar, nada seria diferente.

Enquanto eram feitos os preparativos e durante o transplante todos estavam ali a familia de Salomao, Eliana, a mae de Eliana que apesar de cada vez mais doente e fragil estava tambem ali do seu lado tal como o irmao. Todos tinham o desejo que tudo corresse bem mas enquantos uns se preocupavam mais com Salomao a preocupacao de outros era mesmo Leandro.

Eliana fora ate a capela do hospital, era sabido que o transplante ia demorar horas e ela queria, sentia que precisava de orar um pouco, ou talvez apenas conversar com Deus. Sua mente temia que algo corresse mal e prejudicasse a saude do seu filho e havia tambem uma questao que lhe fazia pensar imenso a algum tempo, sobretudo, nos ultimos dias. Iria Salomao fazer pelo filho o que ela decidira que o filho iria fazer por ele? Seria ele dador de medula se o filho precisasse e ele fosse a unica pessoa compativel?

Todas aquelas questoes a perturbavam e estava ali orando para que Salomao se salvasse, sentia que no fundo, bem la no fundo ele tinha uma pequena parte humana que era boa. Sempre acompanhara avida do mesmo nas redes sociais e apesar de tudo o que ele havia feito com ela e sobretudo com Leandro era um homem que doava muito dinheiro para obras de caridade, patrocionava muitas instituicoes de caridade. Talvez apenas para manter as aparencias, para criar uma boa imagem mas a verdade e que de uma forma ou de outra ele o fazia.

O irmao viera ao seu encontro a operacao do transplante tinha terminado e nao tinha havido complicacoes, Salomao estava bem, aparentemene livre de perigo e podia comecar a recuparar... e Leandro, como estava Leandro, como estava o seu menino, a sua razao de viver? Esse apesar da tenra idade e a tudo o que fora exposto parecia estar ainda melhor.

Salomao acabara de ter alta a poucos dias e ja um advogado seu lhe estava a bater a porta. Eliana foi abrir e ficou a saber que Salomao entrara com o pedido para registar Leandro como seu filho, ia finalmente assumir o filho que sempre desprezara, que sempre ignorara. Salomao tinha um peso na consciencia, Leandro nao era apenas seu filho, o menino tinha sido o seu salvador, era o seu heroi agora, ja que os herois muitas vezes eram quem nos salvavam as vidas. O grande homem influente e poderoso tinha levado uma grande licao e aquele filho nunca mais iria ser desprezado e ignorado pela sua pessoa.

                                                                                                                  Manuel Goncalves






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