Página

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Queria o Teu Perdao



"Queria, preciso do teu perdao..." era assm que ela comecara aquele email. Pensava ele que ela ja se tinha esquecido do contacto dele ou que ate o tivesse perdido mas afinal, nao.

Quando ela dizia "Preciso do teu perdao..." parecia que de facto se esquecera de tudo o que lhe fizera, quase vinte anos se tinham passado, a profecia que ele ditara tinha sido realizada, ela estava sozinha, abandonada, uma familia tao grande mas os filhos tinham saido de casa, feito as suas vidas, constituido as suas familias depois de casarem, alguns nem estavam em Portugal. Ela esquecera-se de tudo o que lhe fizera sofrer, de quantas juras lhe fizera e quebrara como se nao tivessem valor, dizia ela ser crente em Deus, mas quebrava juramentos sem fim, deixara tantas promesas que lhe fizera igualmente por cumprir.

Pouca importancia tinha agora o que ela queria mas o tempo fizera justica, ela estava em depressao, estava como geralmente se diz "na merda". Era dificil chegar a casa e ver aquele enorme espaco vazio, que anos antes estava sempre preenchido pelos filhos cada um no seu canto da sala, na cozinha, ou no quarto de volta dos seus computadores presos a internet. Agora somente tinha um marido que cada vez lhe parecia mais um estranho, de quem ela estava cada vez mais distante, e que tal como lhe confessara anos antes, um marido que ela ja deixara de amar a muito tempo e que o via como um primo e com quem tinha um relacionamento cada vez mais frio, parecia que um casamento com mais de quatro decadas podiam ser eles agora simplesmente desconhecidos e estranhos que se cruzavam entre as multidoes e que jamais se voltariam a ver.

O seu sucesso profissional ja nao servia de escape para lhe compensar pelo fracasso que era a sua vida conjugal. Na altura em que ela o deixara havia boatos de haver outro amante, algo que ela sempre jurara, mas de que valiam as juras dela e havia a pessoa que o informara do que se estava a passar, ela tinha outro com quem mantinha um relacionamento quase a olhos vistos. A dita pessoa afirmava isso e nao lhe tinha razoes para mentir mas por outro lado nao lhe conseguia provar o que dizia. Ele deixara as coisas ficarem como estavam, dera o beneficio da duvida e deixara as coisas ficarem 50% para cada lado, se ela tinha outro amante nao era problema dele.

Depois de tantos anos veio aquele email que ele deixara sem resposta considerando ele e calculando de que as coisas iriam ficar por ali, se ele nao lhe desse resposta ela iria calcular que ele nao queria nada com ela, talvez ate tivesse morrido, talvez estivesse vivo mas tivesse casado e ela nao tinha o direito de entrar de novo, invadir a vida dele daquela forma. Pensava ele que a ignorancia e desprezo resultariam, mas nao. Depois daquele email comecaram a surgir os SMS no telemovel. Teria sido por aquela razao que ele mantivera o mesmo numero que usava a quase vinte anos atras?

Ele estava a caminhar a passos largos para a terceira idade, ja nao era o mesmo jovem que se apaixonara por ela, o mesmo sujeito que mais tarde ja com mais de trinta anos se relacionara com ela. Estava a ficar velho e cansado, deixara de querer ouvir falar naquela mulher que lhe roubara anos de vida, roubara-lhe a oportunidade de ser feliz com ela, roubara-lhe a oportunidade de tentar ser feliz com outra mulher quando voltara a envolver-se uma segunda, uma terceira vez.

Dizia-se arrependida e no fim acabava por lhe fazer sempre pior que na vez anterior, pensava ele que chegava, que bastava, era o suficiente, mas ela parecia que agora tantos anos depois parecia ainda querer mais explorar o seu amor, conquistar os seus sentimentos para depois o deitar fora como se fosse alguem sem valor. Nao teria sido suficiente os anos que ela lhe roubara em que ele podia ter sido ou tentado ser feliz com outra mulher e tinha preferido ficar naquela ilusao, esperando que ela um dia fosse so dele. Ele perdera, sentira que o mundo lhe fugia dos pes no dia em que no aeroporto, ela lhe revelara que queria acabar com a relacao, tinha tomado essa decisao por iniciativa propria, por vontade propria. E agora como era, quando um ano e pouco antes ela lhe jurara se ele a aceitasse de volta so o deixaria se alguem a obrigasse a isso, como era agora?

Durante todos aqueles anos nunca mais se tinham visto fisicamente e sempre que se contactaram poe emails e sms ela ainda se achava dona da razao, ainda achava que tinha agido certo com tudo o que lhe fizera e para o deitar ainda mais ao chao, escrevera-lhe certa vez que era o marido que ela amava, que o mesmo era mais homem que ele, e que ele nao valia nada, o relacionamento deles tinha sido um erro.

Ele nao se esquecera de nada do que tinha acontecido no passado e essas palavras tinham valor, hoje ela amava-o, amanha ja nao. Que futuro lhe podia oferecer uma relacao assim, que seguranca lhe podia dar aquela mulher?

No passado se era verdade que ela a ele que ela amava como ela dizia, se nao sentia nada pelo marido, por tudo o que ele fizera por ela, por tudo o que ela lhe fizera sofrer desde os 17 anos se ela tivesse deixado o marido, nao a familia, para ficar com ele, era o minimo que ela podia ter feito para o compensar por tudo o que ele fizera por ela e por tudo o que ela o fizera passar. Era assim que ele hoje pensava, era assim que ela tinha de fazer as coisas se realmente o amava.

Nada mais importava agora. Ele nunca se casara, nunca voltara a amar, nao deixava de ter sido feliz ainda que sozinho. Fizera montes de amigas e cada vez que ia a Portugal era dificil visitar todas. A Sonia no Porto, a Cidalia em Evora, a Maria Fernandes em Almada, a Marisa de Setubal, com a ultima ate chegara a ter algo de intimo mas apenas por uma amizade colorida, fora combinado entre eles que nao havia relacao com comprimisso, nenhum dos dois queria isso. Ja fora ao Brasil visitar duas amigas, era assim que ele tinha sido feliz, muito feliz, mais feliz do que fora quando andara com ela, mais feliz do que quando estivera com ela.

Ela dizia que o amava, mais tarde que o tinha amado mas mesmo quando dizia que o amava, onde, onde e que ela lhe tinha conseguido provar, demostrar esses amor. Talvez nas vezes que o abandonara, que o deixara, talvez quando quebrava a juras que lhe fizera, talvez quando deixara por cumprir o que lhe prometera.

Ele chegava a casa e mais uma vez tinha aquele email de novo que ja estava a tornar-se repetitivo mas que ele nao iria responder, tal, como nao respondera aos sms:

"Paulo sei que errei contigo, errei muito quando te deixei ja la vao quase duas decadas. Sei que nunca me perdoaste, nunca vais perdoar. Na altura julguei que isso era de menor importancia mas agora o teu perdao era o que eu mais queria.

Sinto-me sozinha, cansada, estou doente, nao sei se vou morrer em breve. Nao sei se vou acordar amanha com vida, talvez fosse melhor se ja nao acordasse. Estou sozinha desde que os meus filhos foram todos a sua vida.

Nao sei o que e feito de ti, passaram-se tantos anos mas gostava de te voltar a encontrar. Sabes dava tudo para voltar a fazer amor contigo como fizemos uma vez no areal da praia. Tu eras louco, insaciavel, que prazer eu tive contigo, quantos orgasmos.

Nao soube dar valor a tudo o que me oferecias, nao soube dar valor ao teu amor, nao soube dar valor, agarrar aquele homem que estava ali a minha frente.

Escrevo-te para dizer que a solidao e fria, a dor em que vivo por todo o mal que te fiz e escura tal como o sofrimento em que vivo. Escrevo-te para te dizer que hoje faria tudo diferente se tivesse a oportunidade de voltar a tras. Sim hoje teria deixado o meu marido para ficar contigo, ele nunca te chegara aos pes tanto como pessoa, tanto como homem, tu tiveste sempre acima dele em todos os sentidos e eu nao soube valorizar isso.

Conhecendo-te como conheco sei que dificilmente me vais responder mesmo que eu mande este email mil vezes e outras mil tu o lei-as. Nao sei o que e feito de ti?, Onde estas?, Como vives agora? Paulo eu so sei que te amo como nunca amei ninguem e se um dia desprezei o teu amor, hoje, hoje quero dizer-te que daria tudo para o teu de novo para mim".

                                                              Tua, sempre, Cristina.

O prazer que lhe dava ler aquele email e deixa-la sem resposta. O prazer que lhe dava tudo isso mas um dia ainda lhe ia dizer para ela ir buscar o amor que procurava nele no marido dela que ela um dia lhe dizia amar.

Em relacao ao resto ela tinha razao. Ele nao a perdoa-la nunca pelo que ela lhe tinha feito e jamais o iria fazer, sentia que so iria achar que a justica tinha sido realmente feita quando ela estivesse dentro de um caixao debaixo de uns quantos palmos de terra, mas nem nessa altura ela teria o seu perdao, isso ela nunca, jamais iria obter. Desligara o Pc nao sem antes apagar o email de vez tal como devia te-la apagado da sua memoria e da sua vida a muitos anos atras. Era tarde, o melhor que ele tinha a fazer era ir dormir

                                                                                                     Manuel Goncalves

Sem comentários:

Enviar um comentário